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23 de abril de 2020

Apesar do desejo de Pedro de que ninguém descobrisse sua identidade, o segredo rapidamente começou a evaporar. Na manhã de segunda-feira, ele havia pedido para que seus companheiros tirassem seus mantos russos e usassem as jaquetas vermelhas e calças de lona branca dos trabalhadores holandeses; porém, mesmo assim, os russos não pareciam holandeses.

A altura de Pedro já tornava o anonimato impossível e, na terça-feira, todos em Zaandam sabiam que “uma pessoa de grande importância” estava na cidade. Isso foi confirmado por um incidente naquela tarde, quando Pedro, andando pela rua e comendo ameixas, ofereceu as frutas a um grupo de rapazes que encontrou. Não havia ameixas suficientes e os garotos começaram a segui-lo. Quando ele tentou afastá-los, eles lançaram pedras e lama contra ele. Pedro encontrou abrigo no Three Swans Inn e buscou ajuda. O burgomestre em pessoa apareceu e o czar se viu forçado a explicar quem era e por que estava ali. O burgomestre imediatamente emitiu uma ordem proibindo os habitantes da cidade de causarem problemas ou insultarem “pessoas distintas que preferem permanecer no anonimato” Logo, a mais distinta das pessoas foi precisamente identificada. Um construtor naval de Zaandam que trabalhava na Rússia havia escrito para seu pai afirmando que a Grande Embaixada seguiria para a Holanda e que o czar provavelmente estaria entre eles, viajando no anonimato.

Contou também que seria fácil reconhecer Pedro por conta da grande altura, das sacudidas ou contrações na cabeça e nos braços e da pequena verruga na bochecha direita. O pai havia acabado de ler a carta em voz alta na quarta-feira para todos na barbearia de Pomp quando um homem alto e com aquelas exatas características entrou no estabelecimento. Como os barbeiros de todo lugar, Pomp via como sua obrigação comunicar todas as fofocas, e imediatamente passou a transmitir a notícia de que o mais alto dos estrangeiros era o czar da Moscóvia. Para verificar o relato de Pomp, as pessoas apressaram-se até Kist, que estava abrigando o estranho e era conhecido por conhecer o czar após passar anos na Rússia. Kist, fiel ao desejo de Pedro, veementemente negou a identidade de seu convidado até sua esposa dizer: “Gerrit, não posso aguentar mais. Pare de mentir”.

Muito embora o segredo de Pedro tivesse sido revelado, ele ainda tentava passar despercebido. Recusou convites para jantar com os principais comerciantes de Zaandam e para comer peixe cozido à moda de Zaandam com o burgomestre e seus conselheiros. A ambos os convites, respondeu que não havia ninguém importante presente; o czar ainda não havia chegado. Quando um dos principais comerciantes foi até os camaradas de Pedro para oferecer uma casa maior com um jardim repleto de árvores frutíferas – que seria mais apropriada para eles e seu mestre –, eles responderam que não eram nobres, mas apenas servos, e que as acomodações em que estavam alojados eram amplas.

A notícia da presença do czar em Zaandam espalhou-se rapidamente pela Holanda. Muitas pessoas, entretanto, simplesmente recusavam-se a acreditar e inúmeras apostas foram feitas. Dois comerciantes que haviam conhecido Pedro em Arcangel se apressaram em direção a Zaandam. Vendo-o em sua casa na manhã de terça-feira, eles ficaram pálidos de emoção e declararam: “Certamente é o czar, mas como e por que está aqui?”. Outro conhecido de Arcangel contou a Pedro que estava impressionado de vê-lo na Holanda e usando roupas normais de trabalho. Pedro simplesmente respondeu: “Você está vendo”, e se recusou a comentar mais sobre o assunto.

Na quinta-feira, o czar comprou um barco a vela por 450 florins e instalou um novo mastro e gurupés com as próprias mãos. Quando o sol nasceu na sextafeira, Pedro estava navegando no Ij, com a cana do leme na mão. Naquele dia, depois do jantar, voltou a navegar, mas, enquanto se divertia pelo Ij, viu um grande número de barcos saindo de Zaandam para unirem-se a ele. Para escapar, guinou na direção da encosta e pulou para fora da embarcação, mas logo se viu em meio a outra multidão curiosa, acotovelando-se para vê-lo e encarando-o como se ele fosse um animal no zoológico. Furioso, Pedro esbofeteou a cabeça de um espectador, fazendo a multidão gritar para a vítima: “Bravo! Marsje, agora você foi condecorado!”. A essa altura, o número de pessoas nos barcos e na encosta havia crescido tanto que Pedro se isolou em uma pousada e se recusou a retornar a Zaandam antes do escurecer.

No dia seguinte, sábado, o czar planejava observar a delicada e interessante operação mecânica por meio da qual um navio grande e recém-construído era puxado pelo topo de um dique com a ajuda de rolamentos e cabrestantes. Com o objetivo de protegê-lo, um espaço havia sido cercado de modo que Pedro pudesse observar sem ser esmagado pela multidão. Na manhã de sábado, todavia, a notícia da esperada presença do czar havia atraído multidões ainda maiores, com pessoas vindas até mesmo de Amsterdã. Havia tantas delas que as cercas foram derrubadas. Pedro, vendo as janelas e até mesmo os tetos nas casas em volta repletas de espectadores, recusou-se a comparecer, muito embora o burgomestre tivesse ido pessoalmente chamá-lo. O czar respondeu em holandês: “Pessoas demais. Pessoas demais”

Pedro o Grande, de Robert K. Massie