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25 de abril de 2020

Com bastante facilidade, como afinal se constatou. Depois de uma breve parada em Beirute, o kaiser realizou outra entrada cerimonial, dessa feita em Damasco. Guilherme ficou inebriado com a primeira cidade verdadeiramente árabe que visitava na vida, “com seus característicos pátios internos resguardados e suas fontes murmurantes, os bazares sedutores e o fascínio da arquitetura sarracena e do modo de vida dos árabes.”

A toda parte a que Guilherme ia, como se lembrava seu secretário de Estado, Bernhard von Bülow, “a população o recebia com gritos peculiares de boas-vindas, sons guturais e prolongados que repetiam em cantinela ‘lululu, lululu, lululu’, e aquele som monótono o intoxicava como se tivesse fumado haxixe ” Hipnotizado. Guilherme depositou uma coroa no túmulo do grande guerreiro muçulmano Saladino e “pendurou uma lâmpada de prata maciça antes de ordenar a construção de um mausoléu feito do mais fino mármore ali, a suas custas.” Comovido pela homenagem prestada pelo kaiser a um grande herói do Islã, o xeque Abdullah Effendi, o clérigo mais importante da cidade, organizou um banquete em honra de Guilherme no dia 8 de novembro 1898. Nessa oportunidade, em um discurso notório, parte de uma carreira de muitos pronunciamentos famosos, o kaiser prestou um efusivo tributo ao herói medieval do Islã, descrevendo-o como “um dos mais cavalheirescos governadores de todos os tempos, o grande sultão Saladino […] um cavaleiro sem medo e sem mancha.”

Fazendo a óbvia ligação entre Saladino e o sultão ali presente, Guilherme passou em seguida a saudar o grande Abdulhamid. Com um dramático floreio, Guilherme declarou: “Que o sutão e seus 300 milhões de súditos espalhados pela Terra, que o veneram como seu califa, possam ter certeza de que o kaiser alemão será seu amigo para sempre.”

Teria o kaiser Guilherme enlouquecido? Uma coisa era oferecer proteção aos cristãos na Terra Santa, embora até mesmo essa espécie de manobra pudesse acarretar sérias consequências, como Napoleão Ill havia descoberto quando sua tentativa de cortejar os cristãos levantinos em 1852 acenderão estopim que por fim levaria à Guerra da Crimeia.* Mas ali estava um poderoso soberano cristão, manifestando um interesse proprietário por praticamente todos os súditos do Oriente Médio otomano-nada menos do que três denominações cristãs, os judeus da Palestina e todos os muçulmanos de quebra. E isso não foi tudo. Ao oferecer sua proteção_por meio do sultão- a “300 milhões de muçulmanos” no mundo todo, Guilherme estava invadindo a de outras potências que tinham súditos muçulmanos, entre as quais o Norte africano dominado pela França, a região central da Ásia que era dos russos e o Império Britânico que, sozinho, contava perto de 100 milhões de muçulmanos espalhados pela Índia britânica, o Egito e os estados do golfo. E, então, havia ainda a Pérsia e a zona Sudeste da Mesopotâmia, onde os muçulmano shia nunca haviam aceitado o sultão otomano como seu califa.

Não admira que o ministro do Exterior do kaiser, Bernhard von Bulow, tentasse desesperadamente editar o texto do discurso de Guilherme antes de ser divulgado para a imprensa, temendo “despertar suspeitas em [..] Paris, Londres e São Petersburgo.” Mas era tarde demais: o embaixador alemão em Constantinopla, o barão Marschall. já tinha entregue o texto para a agência de noticias Wolf, “por ordem direta de Sua Majestade”.

O Expresso Berlim-Bagdá, de Sean McMeekin