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26 de abril de 2020

O retorno de Pedro a Amsterdã havia sido forçado pelas multidões nas docas de Zaandam, mas ele teria retornado de qualquer forma para encontrar sua Grande Embaixada, que acabava de chegar. Os embaixadores haviam sido recebidos em estilo real em Cleves, perto da fronteira, e quatro grandes iates e numerosas carruagens haviam sido colocadas à sua disposição. Os fundadores da cidade de Amsterdã, entendendo o possível significado dessa embaixada em termos de futuros negócios com a Rússia, decidiram recebê-los com honras extraordinárias. A recepção incluía visitas cerimoniais à prefeitura, ao almirantado e às docas, além de performances especiais de ópera e balé e um grandioso banquete que terminaria com um show de fogos de artifícios lançados de uma balsa no Amstel.

Durante essas festividades, Pedro teve a chance de conversar com o extraordinário burgomestre de Amsterdã, Nicholas Witsen. Instruído, rico, respeitado por seu caráter e também por suas conquistas, ele era um explorador, patrono das artes e cientista amador, além de servidor público. Uma de suas paixões era os navios, e ele levou Pedro para ver sua coleção de modelos navais, instrumentos de navegação e ferramentas usadas na construção de embarcações. Witsen era fascinado pela Rússia e, durante muito tempo, em conjunto com suas outras obrigações e interesses, atuara como ministro não oficial da Moscóvia em Amsterdã.

Durante os meses que Pedro passou na cidade, o czar e o burgomestre conversaram diariamente e Pedro contou a Witsen o problema das multidões em Zaandam e em Amsterdã. Como ele conseguiria trabalhar em silêncio, aprendendo a construir navios, se estivesse cercado por estranhos curiosos que não paravam de encará-lo? Witsen imediatamente apresentou uma sugestão: se Pedro permanecesse em Amsterdã, poderia trabalhar nos estaleiros e nas docas da Companhia Holandesa das Índias Orientais, que eram cercadas por muralhas e fechadas ao público.

Pedro adorou a ideia e Witsen, um dos diretores da empresa, fez os arranjos necessários. No dia seguinte, o conselho administrativo da Companhia das Índias Orientais resolveu convidar “uma alta personalidade aqui presente no anonimato” para trabalhar em seus estaleiros. E, para a conveniência de Pedro, decidiram oferecer-lhe a casa do mestre produtor de cordas para que ele pudesse morar e trabalhar dentro do estaleiro sem ser perturbado. Ademais, para assisti-lo no aprendizado, a diretoria ordenou a instalação da quilha de uma nova fragata de trinta ou quarenta metros (como o czar preferisse) para que ele e seus camaradas pudessem trabalhar e observar os métodos holandeses desde o início.

Naquela noite, durante o banquete formal de Estado oferecido à Embaixada pela cidade de Amsterdã, Witsen contou a Pedro sobre a decisão à qual os diretores haviam chegado mais cedo naquele mesmo dia. Pedro se mostrou entusiasmado e, embora adorasse fogos de artifício, quase não conseguiu se conter durante o restante da refeição. Quando o último foguete explodiu, o czar colocou-se rapidamente de pé e anunciou que seguiria para Zaandam naquele exato momento, no meio da noite, para buscar suas ferramentas e poder trabalhar na manhã seguinte. As tentativas tanto de russos quanto de holandeses de contê-lo provaram-se inúteis e, às onze da noite, o czar entrou em seu iate e seguiu viagem.

Na manhã seguinte, estava de volta e foi direto para o estaleiro da Companhia das Índias Orientais, em Ostenburg. Dez “voluntários” russos, incluindo Menchikov, acompanharam-no, ao passo que os demais “voluntários” foram espalhados, por ordens de Pedro, em volta do ancoradouro, aprendendo a fabricar velas e cordas, arrumar mastros, usar polias e também noções de náutica. O príncipe Alexandre de Imeritia foi enviado a Haia para estudar artilharia. O próprio Pedro começou a estudar carpintaria sob a supervisão de Gerrit Claes Pool, mestre em carpintaria naval.

As primeiras três semanas foram gastas coletando e preparando madeira e outros materiais necessários. Para que o czar pudesse ver exatamente o que estava sendo feito, o holandês expôs todas as peças antes mesmo de criar a quilha. Então, conforme cada peça era presa no lugar, o navio tomava forma rapidamente, quase como um grande modelo pré-fabricado. A fragata de trinta metros foi batizada de Os Apóstolos Pedro e Paulo, e Pedro trabalhou com entusiasmo em cada estágio da montagem.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie