#952

2 de maio de 2020

Ele chegava ao estaleiro todos os dias ao amanhecer, carregando o machado e as ferramentas nos ombros, assim como os demais trabalhadores. Não permitia que fizessem distinção entre ele e os outros e recusava-se terminantemente a ser chamado ou identificado por qualquer título. Nas horas de descanso da tarde, gostava de sentar-se em um toco de madeira e conversar com os marinheiros ou construtores navais ou qualquer um que o chamasse de “carpinteiro Pedro” ou “baas [mestre] Pedro”. Ignorava ou dava as costas para qualquer um que o chamasse de “Majestade”. Quando dois nobres ingleses vieram vislumbrar o czar da Moscóvia trabalhando como operário, o contramestre, para apontar quem era Pedro, disse: “Carpinteiro Pedro, por que não ajuda seus camaradas?”. Sem dizer uma palavra, o czar se aproximou e ajeitou o ombro sob uma tora que vários outros homens se esforçavam para erguer, ajudando-os, assim, a colocar a madeira no lugar.

Pedro estava feliz com a casa que haviam lhe concedido. Vários de seus camaradas ali viviam com ele como um grupo de trabalhadores comuns. Originalmente, as refeições do czar eram preparadas pela equipe da hospedaria na qual estava a Embaixada, mas isso o incomodava. Pedro queria uma casa completamente independente. Não tinha horas fixas para suas refeições, pois queria se alimentar sempre que estivesse faminto. Então ficou combinado que ele receberia lenha e produtos para preparar seu sustento e, então, deixado por contra própria. Depois disso, Pedro prepararia o fogo e suas refeições como um carpinteiro simples.

Porém, embora estivesse em uma terra estrangeira, usando roupas locais e envolvido com as práticas dos trabalhadores, nem Pedro, nem seus compatriotas em momento algum se esquecerem de quem ele era ou do poder que tinha em mãos. Em Moscou, seus vice-reis mostravam-se relutantes em agir sem seu consentimento, e cada mensageiro lhe trazia montes de correspondências pedindo orientações, favores ou notícias. Pedro, em um estaleiro a milhares de quilômetros de sua capital, agora interessava-se mais do que nunca pelo governo de seu país. Insistia em ser informado dos menores detalhes dos assuntos públicos que, no passado, tão deliberadamente negligenciava.

Queria saber tudo o que estava acontecendo. Como os Streltsi estavam se comportando? Quais progressos haviam sido alcançados nos dois fortes em Azov? E quanto ao porto e aos fortes em Tagonrog? O que estaria se passando na Polônia? Quando Shein lhe escreveu para contar da vitória sobre os turcos nos arredores de Azov, Pedro celebrou oferecendo um enorme banquete para os principais comerciantes de Amsterdã, seguido por um concerto, um baile e fogos de artifício. Quando descobriu a vitória culminante do príncipe Eugênio de Savoia sobre os turcos em Senta, enviou a notícia a Moscou e concedeu outro banquete para homenagear esse sucesso. Tentava responder as cartas de Moscou toda sexta-feira, embora, conforme escreveu a Vinius: “às vezes pelo cansaço, às vezes pela ausência, às vezes por Khmelnitski [uma bebida] isso seja impossível”.

Em certa ocasião, o poder de Pedro sobre dois de seus súditos (ambos nobres servindo a Embaixada na Holanda) foi colocado em prática. Ao descobrir que os dois russos haviam criticado seu comportamento, afirmando que o czar deveria se comportar menos como um espetáculo e agir mais de acordo com os outros homens, Pedro ficou furioso. Presumindo que na Holanda ele possuía poder de vida e morte sobre seus súditos (como era o caso na Rússia), ordenou que os dois fossem acorrentados para posterior execução. Witsen interferiu, pedindo para que Pedro se lembrasse de que estava na Holanda, onde nenhuma execução poderia ocorrer exceto por uma sentença do tribunal do país. Witsen delicadamente sugeriu que os homens fossem libertados, mas Pedro se mostrou inflexível. Por fim, relutantemente cedeu em um acordo que enviou os dois infelizes exilados às mais distantes colônias da Holanda: um deles foi para a Batávia e o outro, para o Suriname.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie