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3 de maio de 2020

O papa João XXIII, Baldassare Cossa, começou sua carreira na corte de seu compatriota napolitano Bonifácio IX, a quem serviu como camerlengo particular. Foi nessa condição que ele ajudou a fiscalizar a venda de empregos na Igreja e o alucinado mercado de indulgências. Também ajudou a organizar o lucrabilíssimo Jubileu em que os peregrinos que se dirigiram às principais igrejas de Roma receberam uma indulgência plenária, ou seja, remissão de toda a horrenda dor depois da morte nos fogos do purgatório. As imensas multidões encheram as estalagens da cidade, frequentaram tabernas e bordéis, cruzaram em fila indiana as pontes estreitas, rezaram nos santuários sagrados, acenderam velas, olharam pasmadas estátuas e retratos milagreiros e voltaram para casa com suvenires talismânicos.

A ideia original era organizar um Jubileu a cada cem anos, mas a demanda era tão grande e os lucros, tão imensos, que o intervalo foi diminuído primeiro para 50 anos, depois 33, e depois 25. Em 1400, o gigantesco número de peregrinos em Roma na virada de um novo século levou o papa a emitir uma indulgência plenária, embora só se tivesse passado uma década do Jubileu anterior. Para ampliar seus lucros, a Igreja inventou várias ofertas, exemplos práticos da inteligência de Cossa. Daí, por exemplo, que pessoas que desejavam os benefícios espirituais conferidos pela peregrinação a Roma — isenção de milhares de anos de tormentos post-mortem no Purgatório —, mas que queriam evitar a difícil jornada através dos Alpes, podiam obter as mesmas indulgências visitando certos santuários na Alemanha, desde que pagassem o que teriam sido os custos da viagem mais longa.

Os dons de Cossa não se limitavam a estratégias de marketing. Nomeado governador de Bolonha, ele provou ser um comandante civil e militar de extrema competência, além um vigoroso orador. Ele era de muitas maneiras a perfeita encarnação das qualidades — inteligência aguda, eloquência, ousadia prática, ambição, eroticidade, energia ilimitada — que juntas formam o ideal do homem do Renascimento. Mas, mesmo para uma era acostumada a um afastamento entre as profissões de fé e a realidade, o cardeal-diácono de Bolonha, título de Cossa, parecia uma figura estranha demais para usar trajes eclesiásticos. Embora fosse, como comentou o humanista Leonardo Bruni, um homem do mundo competentíssimo, era óbvio que ele não tinha nem vestígios de uma vocação espiritual.

Essa percepção muito difundida de seu caráter ajuda a explicar a curiosa mistura de admiração, medo e suspeita que provocava, e que levava as pessoas a acreditarem que ele era capaz de qualquer coisa. Quando, no dia 4 de maio de 1410, o papa Alexandre V morreu imediatamente depois de uma visita a Bolonha para um jantar com seu amigo, o cardeal-diácono, correu à boca pequena que ele havia sido envenenado. As suspeitas não impediram que a facção de Cossa entre os cardeais o elegesse para suceder Alexandre como papa.

Talvez simplesmente tivessem medo. Ou talvez lhes parecesse que Cossa, com apenas quarenta anos de idade, tivesse as habilidades necessárias para pôr fim ao infame cisma na Igreja e derrotar as pretensões do obstinadamente inflexível espanhol Pedro de Luna, autodenominado papa Bento XIII, e do intransigente veneziano Ângelo Correr, autodenominado papa Gregório XII. Se era essa a esperança dos cardeais, eles logo se decepcionaram; mas não devem ter ficado assim tão surpresos.

O Grande Cisma do Ocidente já durava mais de 30 anos, e tinha resistido a todas as tentativas de resolução. Cada um dos pretensos papas havia excomungado os seguidores dos outros e invocado a vingança divina contra eles. Todos eles, ao mesmo tempo em que tentavam se mostrar moralmente superiores, apelavam para táticas baixas. Todos eles tinham aliados poderosos, mas também fraquezas estratégicas que faziam que a obtenção da unidade através da conquista militar fosse impossível. Todos compreendiam que a situação era intolerável. As facções nacionais em combate — com espanhóis, franceses e italianos apoiando candidatos diferentes — solapavam a afirmação de que existia uma Igreja católica, ou seja, universal. O espetáculo de múltiplos papas batendo boca minava a legitimidade da instituição. A situação era constrangedora, de mau gosto, perigosa. Mas quem poderia resolvê-la?

A Virada, de Stephen Greenblatt