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12 de maio de 2020

Jan Hus, que vinha pedindo com insistência uma oportunidade de se explicar diante de um concílio eclesiástico, havia sido formalmente convidado a apresentar suas opiniões diante dos prelados, teólogos e soberanos em Constança. O reformador tcheco tinha a luminosa certeza dos visionários, de que suas verdades, desde que lhe dessem o direito de enunciá-las com clareza, varreriam as teias de aranha da ignorância e da má-fé.

Como alguém que já tinha sido acusado de heresia, ele também estava apreensivo. Hus recentemente havia visto três rapazes, dois dos quais eram seus alunos, serem decapitados pelas autoridades. Antes de abandonar a relativa segurança de seus protetores na Boêmia, ele solicitou e recebeu um certificado de ortodoxia do grande inquisidor das dioceses de Praga, e também uma garantia de livre passagem do imperador Sigismundo. O salvo-conduto, que trazia o grande selo imperial, prometia “proteção e salvaguarda” para “passar, pousar, parar e voltar”.

Os nobres boêmios que o acompanhavam foram na frente para se encontrar com o papa e perguntar se Hus poderia ficar em Constança livre do risco de violência. “Tivesse ele matado minha própria mãe”, João XXIII respondeu, “nenhum fio de seu cabelo seria tocado enquanto ele permanecesse na cidade.” Com essas garantias, não muito depois da grandiosa entrada do papa sitiado, o reformista chegou a Constança.

A chegada de Hus no dia 3 de novembro deve ter parecido um presente de Deus, por assim dizer, para o então encurralado João XXIII. O herege era odiado tanto pelos justos como pelos ímpios da Igreja. Ele e seu principal parceiro, Jerônimo de Praga, eram conhecidos seguidores do herege inglês John Wycliffe, que por sua defesa da tradução vernácula da Bíblia, sua insistência no primado da fé nas escrituras sobre as obras e seus ataques contra a riqueza do clero e a venda de indulgências tinha sido condenado pela Igreja no século anterior. Wycliffe tinha morrido na cama, para grande desagrado de seus inimigos eclesiásticos, mas o concílio agora ordenava que seus restos fossem exumados e descartados fora do solo consagrado. Não era um sinal auspicioso para a recepção que dariam a Jan Hus.

Apesar das garantias de que o papa, o concílio e o imperador lhe haviam dado, Hus foi quase imediatamente vilipendiado, e não lhe deram a oportunidade de falar em público. No dia 28 de novembro, menos de três semanas depois de ter chegado, ele foi preso por ordem dos cardeais e levado à prisão de um mosteiro dominicano às margens do Reno. Ali foi trancafiado numa cela subterrânea onde se jogava todo o esgoto do mosteiro. Quando ficou gravemente doente, pediu que fosse nomeado um advogado para defender sua causa, mas lhe disseram que, segundo o direito canônico, ninguém poderia defender a causa de um homem acusado de heresia.

Diante dos protestos de Hus e de seus apoiadores boêmios sobre a clara violação de seu salvo-conduto, o imperador escolheu não intervir. Dizia-se que ele tinha ficado desconfortável com o que parecia ser uma violação de sua palavra, mas um cardeal inglês supostamente lhe teria assegurado que “no caso de um herege não é necessário manter a palavra”.

A Virada, de Stephen Greenblatt