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16 de maio de 2020

Fora do estaleiro, a curiosidade de Pedro era insaciável. Ele queria ver tudo com os próprios olhos. Visitou serrarias, fábricas de fios e de papel, oficinas, museus, jardins botânicos e laboratórios. Em todos os lugares, perguntava: “Para que serve isso? Como funciona?”. Ouvindo as explicações, assentia: “Muito bom, muito bom”.

Conheceu arquitetos, escultores e Van der Hey den, inventor da bomba de incêndio, a quem Pedro tentou convencer a ir para a Rússia. Visitou o arquiteto Simon Schnvoet, o museu de Jacob de Wilde e aprendeu a rascunhar e a desenhar com Schonebeck. Gravou uma placa retratando um homem alto e jovem (que se parecia consigo) segurando uma cruz alta, parado sobre a lua crescente e os símbolos do islã. Em Delft, visitou o engenheiro barão von Coehorn, o “Vauban holandês”, que lhe deu aulas sobre a ciência das fortificações. Visitou holandeses em suas casas, especialmente aqueles envolvidos em negócios com a Rússia. Passou a se interessar pela impressão quando conheceu a família Tessing, e concedeu a um dos irmãos o direito de imprimir livros em russo e de introduzi-los na Rússia.

Várias vezes, Pedro deixou o estaleiro para visitar a sala de aula e de dissecação do renomado professor de anatomia FredrikRuysch, famoso em toda a Europa por sua habilidade de preservar partes do corpo humano e até mesmo cadáveres inteiros com a injeção de compostos químicos. Seu impressionante laboratório era considerado uma das maravilhas da Holanda. Certo dia, Pedro se viu diante do corpo de uma criança tão perfeitamente preservada que parecia viva e sorridente. Ele encarou o cadáver por um bom tempo, impressionado, e por fim não conseguiu resistir: inclinou o corpo para a frente e beijou a testa fria. Interessou-se tanto por cirurgia que teve dificuldades em deixar o laboratório – queria ficar e observar mais. Jantou com Ruysch, que o aconselhou na escolha de alguns cirurgiões para serem levados à Rússia para trabalhar com o exército e a frota. Pedro se interessou por anatomia e, depois disso, considerou-se um cirurgião qualificado. Afinal, ele perguntava, quantos outros russos haviam estudado com o famoso Ruy sch?

Em anos posteriores, Pedro sempre carregava consigo dois estojos: um cheio de instrumentos matemáticos para examinar e verificar os planos de construção que lhe eram apresentados e o outro repleto de instrumentos cirúrgicos. Deixava instruções para ser informado sempre que uma operação importante estivesse prestes a ser realizada em um hospital nos arredores e, em geral, estava presente, com frequência ajudando e adquirindo habilidades suficientes para dissecar, tirar sangue, extrair dentes e realizar cirurgias menores. Seus servos que se adoentavam tentavam manter a enfermidade escondida do czar para que ele não aparecesse ao lado de seus leitos com seu estojo de instrumentos e oferecesse – e até mesmo insistisse que aceitassem – seus serviços.

Em Leyden, Pedro visitou o famoso doutor Boerhaave, que supervisionava um celebrado jardim botânico. Boerhaav também dava aulas de anatomia e, quando perguntou a Pedro a que horas ele gostaria de fazer uma visita, o czar escolheu as seis da manhã seguinte. Também visitou a área de dissecação de Boerhaave, onde havia sobre a mesa um cadáver com alguns músculos expostos. Pedro estudava o corpo com fascinação quando ouviu queixas de alguns de seus colegas russos enjoados. Furioso, e para horror do holandês, o czar ordenou que eles se aproximassem do cadáver, inclinassem o corpo e mordessem um dos músculos.

Em Delft, visitou o celebrado naturalista Anton van Leeuwenhoek, inventor do microscópio. Passou mais de duas horas conversando com Leeuwenhoek e olhando pelas lentes do incrível instrumento com o qual o naturalista havia descoberto a existência do espermatozoide e estudado a circulação do sangue em peixes.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie