#961

17 de maio de 2020

Se Baldassare Cossa achava que a perseguição a Jan Hus distrairia o concílio de sua determinação de pôr fim ao Grande Cisma do Ocidente ou calaria seus inimigos, estava dolorosamente enganado. Apesar de o clima na corte papal estar ficando pesado, o papa continuava a dar extravagantes espetáculos públicos.

Mas o que estava acontecendo longe dos ávidos olhares do público era cada vez mais preocupante. Embora continuasse a presidir as reuniões do concílio, o papa tinha perdido controle da pauta, e estava claro que o imperador Sigismundo, que havia chegado a Constança no dia 25 de dezembro, não estava inclinado a salvá-lo.

Cossa ainda tinha seus aliados. Numa sessão do concílio, no dia 11 de março de 1415, discutindo como poderiam eleger um único papa para toda a Igreja, o arcebispo de Mainz levantou e disse que nunca obedeceria a alguém que não João XXIII. Mas não houve um coro de apoio, do tipo que ele deve ter tido esperanças de levantar. Em vez disso, o patriarca de Constantinopla exclamou: “Quis est iste ipse? Dignus est comburendus! — Quem é esse aí? Ele merece ser queimado!”. O arcebispo se retirou e a sessão se desfez.

A raposa via que a armadilha estava prestes a se fechar. Constança, disse ele, não era um lugar seguro. Ele não se sentia mais em segurança. Queria levar o concílio a algum lugar mais adequado. O rei objetou, e o conselho municipal de Constança se apressou para oferecer garantias: “Se sua santidade não tinha segurança suficiente”, os burgueses declararam, “eles lhe ofereceriam mais e o protegeriam do mundo, mesmo que um destino catastrófico os compelisse a comer seus próprios filhos”.

Cossa, que havia feito promessas igualmente extravagantes a Hus, não se deu por satisfeito. No dia 20 de março de 1415, perto de uma da tarde, ele fugiu. Enrolado numa capa cinza com capuz para que ninguém lhe visse o rosto, ele saiu tranquilamente a cavalo pelos portões da cidade. Perto dele ia um balestreiro, além de dois outros homens, ambos embuçados. Durante aquela tarde e a noite toda, os partidários do papa — seus criados e acólitos e secretários — abandonaram a cidade com toda a discrição possível. Mas logo o boato correu. João XXIII tinha ido embora. Nas semanas seguintes os inimigos de Cossa, que o rastrearam até Schaffhausen, onde ele tinha se refugiado no castelo de um aliado, redigiram uma acusação formal contra ele.

Enquanto boatos ameaçadores ganhavam força e seus últimos aliados começavam a capitular, ele fugiu de novo, também disfarçado, e sua corte mergulhou ainda mais no caos: “Os membros da cúria o seguiram todos, apressada e desorganizadamente”, registra um dos cronistas da época; “pois o papa estava fugindo e o resto fugia também, à noite, embora sem quem os perseguisse”. Por fim, sob grande pressão do imperador, o principal protetor de Cossa entregou seu hóspede indesejado, e o mundo viu o edificante espetáculo de um papa posto a ferros como um criminoso.

A Virada, de Stephen Greenblatt