#961

17 de maio de 2020

Se Cossa achava que a perseguição a Hus distrairia o concílio de sua determinação de pôr fim ao cisma ou calaria seus inimigos, estava dolorosamente enganado. Apesar de o clima na corte papal estar ficando pesado, o papa continuava a dar extravagantes espetáculos públicos. Richental descreve os eventos:

“Quando o Papa ia dar sua bênção, um bispo mitrado ia primeiro à sacada, carregando uma cruz, e atrás da cruz vinham dois bispos com mitras brancas, levando nas mãos duas velas altas acesas, e colocavam as velas acesas na janela. Depois vinham quatro cardeais, também com mitras brancas, ou às vezes seis, ou em outras vezes menos. Às vezes também o senhor nosso rei ia à sacada. Os cardeais e o rei ficavam às janelas. Depois deles vinha nosso santo pai o papa, usando os trajes sacerdotais mais caros e com uma mitra branca na cabeça. Sob os paramentos para a missa ele usava uma túnica a mais que um padre, e tinha luvas nas mãos e um grande anel, ornado de rara pedra imensa, no dedo médio da mão direita. Ele ficava à janela central, para que todos o vissem. Então vinham seus cantores, todos com velas acesas de modo que a sacada brilhava como se estivesse em chamas, e eles tomavam posição atrás dele. E um bispo ia até ele e tirava-lhe a mitra. Quando então o papa começava a cantar…”

Mas o que estava acontecendo longe dos ávidos olhares do público era cada vez mais preocupante. Embora continuasse a presidir as reuniões do concílio, o papa tinha perdido controle da pauta, e estava claro que o imperador Sigismundo, que havia chegado a Constança no dia 25 de dezembro, não estava inclinado a salvá-lo.

Cossa ainda tinha seus aliados. Numa sessão do concílio, no dia 11 de março de 1415, discutindo como poderiam eleger um único papa para toda a Igreja, o arcebispo de Mainz levantou e disse que nunca obedeceria a alguém que não João xxiii. Mas não houve um coro de apoio, do tipo que ele deve ter tido esperanças de levantar. Em vez disso, o patriarca de Constantinopla exclamou: “Quis est iste ipse? Dignus est comburendus! — Quem é esse aí? Ele merece ser queimado!”. O arcebispo se retirou e a sessão se desfez.

A raposa via que a armadilha estava prestes a se fechar. Constança, disse ele, não era um lugar seguro. Ele não se sentia mais em segurança. Queria levar o concílio a algum lugar mais adequado. O rei objetou, e o conselho municipal de Constança se apressou para oferecer garantias: “Se sua santidade não tinha segurança suficiente”, os burgueses declararam, “eles lhe ofereceriam mais e o protegeriam do mundo, mesmo que um destino catastrófico os compelisse a comer seus próprios filhos”.

Cossa, que havia feito promessas igualmente extravagantes a Hus, não se deu por satisfeito. No dia 20 de março de 1415, perto de uma da tarde, ele fugiu. Enrolado numa capa cinza com capuz para que ninguém lhe visse o rosto, ele saiu tranquilamente a cavalo pelos portões da cidade. Perto dele ia um balestreiro, além de dois outros homens, ambos embuçados. Durante aquela tarde e a noite toda, os partidários do papa — seus criados e acólitos e secretários — abandonaram a cidade com toda a discrição possível. Mas logo o boato correu. João xxiii tinha ido embora. Nas semanas seguintes os inimigos de Cossa, que o rastrearam até Schaffhausen, onde ele tinha se refugiado no castelo de um aliado, redigiram uma acusação formal contra ele.

Enquanto boatos ameaçadores ganhavam força e seus últimos aliados começavam a capitular, ele fugiu de novo, também disfarçado, e sua corte — inclusive, pode-se presumir, seu secretário apostólico Poggio — mergulhou ainda mais no caos: “Os membros da cúria o seguiram todos, apressada e desorganizadamente”, registra um dos cronistas da época; “pois o papa estava fugindo e o resto fugia também, à noite, embora sem quem os perseguisse”. Por fim, sob grande pressão do imperador, o principal protetor de Cossa entregou seu hóspede indesejado, e o mundo viu o edificante espetáculo de um papa posto a ferros como um criminoso.

A Virada, de Stephen Greenblatt