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19 de maio de 2020

Nos dias livres em Amsterdã, Pedro vagava a pé pela cidade, observando os cidadãos passarem, as carruagens sacudirem sobre as pontes, os milhares de barcos remando para cima e para baixo nos canais. Nos dias de compras, o czar frequentava a feira ao ar livre e o Botermarket, onde bens de todos os tipos eram empilhados em áreas abertas e sob arcadas. Parado próximo a uma mulher que comprava queijos ou a um comerciante escolhendo tinta, Pedro observava e estudava.

Gostava particularmente de ver artistas de rua se apresentando diante de multidões. Certo dia, assistiu a um palhaço célebre fazendo malabarismo sobre um barril. Deu um passo à frente e tentou convencer o homem a ir com ele para a Rússia. O malabarista recusou o convite, afirmando que fazia muito sucesso em Amsterdã. No mercado, o czar testemunhou um dentista extrair um dente dolorido com instrumentos nada ortodoxos (como a parte côncava de uma colher ou a ponta de uma espada). Pediu uma aula e absorveu conhecimento suficiente para fazer experiências com seus servos. Aprendeu a remendar suas próprias roupas e, com um sapateiro, a fazer chinelos. No inverno, quando os céus se mostravam eternamente cinzas e o Amstel e os canais estavam congelados, Pedro viu mulheres com peles e lãs e homens e garotos com casacos longos e lenços acelerarem em seus patins de gelo com lâminas curvadas. Os locais mais aquecidos e aqueles onde o czar ficava mais feliz eram as cervejarias e as tavernas onde relaxava com seus camaradas holandeses e russos.

Observando a imensa prosperidade da Holanda, Pedro não conseguia deixar de se perguntar como seu próprio povo, com uma extensão infinita de estepe e floresta à disposição, produzia apenas para o próprio consumo, ao passo que ali, em Amsterdã, com os cais e armazéns e florestas de mastros, mais riqueza era acumulada do que em toda a área da Rússia. Um motivo, Pedro sabia, era o comércio, a economia mercantil, a posse de navios. Ele decidiu se dedicar a realizar essas conquistas para a Rússia. Outro motivo era a tolerância religiosa na Holanda. Como o negócio internacional não conseguiria florescer em uma atmosfera de estreitas doutrinas religiosas ou preconceitos, a Holanda protestante praticava a maior tolerância religiosa na Europa daquela época. Foi para lá que os dissidentes da Inglaterra calvinista de Jaime I fugiram em 1606, e de lá navegaram uma década mais tarde até a Baía de Plymouth. Foi também para a Holanda que os huguenotes franceses seguiram aos milhares quando Luís XIV revogou o Édito de Nantes. Ao longo de todo o século XVII, a Holanda serviu tanto como uma central intelectual e artística quanto um centro comercial da Europa. Foi para defender suas liberdades religiosas e também sua supremacia comercial que os holandeses resistiram tão ferozmente ao engrandecimento da França católica de Luís XIV. Pedro ficou intrigado com essa atmosfera de tolerância religiosa. Visitou muitas igrejas protestantes na Holanda e fez diversas perguntas aos pastores.

Uma faceta brilhante da cultura holandesa do século XVII não o interessou muito, todavia. Era a nova e excepcional pintura dos grandes mestres da Escola Holandesa – Rembrandt, Vermeer, Frans Hals e seus contemporâneos e sucessores. Pedro, de fato, comprou obras holandesas e as levou para Rússia, mas não eram Rembrandts e outras peças de arte que posteriormente seriam colecionadas por Catarina, a Grande. Em vez disso, ele colecionava imagens de navios e do mar.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie