#970

2 de junho de 2020

Setenta acusações foram formalmente lidas contra Baldassare Cossa: o papa João XXIII. Temendo seu efeito na opinião pública, o Concílio de Constança decidiu suprimir as dezesseis mais escandalosas — jamais relevadas — e acusou o pontífice apenas de simonia, sodomia, estupro, incesto, tortura e assassinato. Ele foi acusado de assassinar seu antecessor, além de seu médico e outras pessoas. A pior de todas — pelo menos entre as acusações que foram divulgadas — era aquela que seus detratores desenterraram da antiga luta contra o epicurismo: diziam que o papa tinha sustentado obstinadamente, diante de pessoas de boa reputação, que não havia vida futura ou ressurreição, e que as almas dos homens morrem com seus corpos, como animais.

No dia 29 de maio de 1415 ele foi formalmente deposto. Apagado da lista de papas oficiais, o nome João XXIII ficou de novo disponível, embora fosse demorar mais de quinhentos anos para que outro papa — o grande Angelo Roncalli — tivesse a coragem, em 1958, de adotá-lo. Logo depois da deposição, Cossa ficou pouco tempo preso no castelo Gottlieben, no Reno, onde Hus, quase morrendo de fome, estava acorrentado havia mais de dois meses.

Não se sabe se o papa e o herege, tão implausivelmente unidos na mais abjeta desgraça, foram reunidos por seus carcereiros. Naquele momento, caso ainda estivesse com seu mestre — e os registros não permitem sabê-lo ao certo —, Poggio teria se despedido dele pela última vez. Todos os antigos servidores do papa foram demitidos, e o prisioneiro, logo transferido para outra prisão, ficou dali em diante cercado de guardas falantes de alemão, com quem só podia se comunicar por uma linguagem de sinais. Isolado do mundo, ele se ocupava escrevendo versos sobre a natureza transitória de todas as coisas terrenas.

Os homens do papa estavam repentinamente sem um senhor. Alguns foram correndo conseguir emprego com um ou outro dos prelados e príncipes que estavam em Constança. Mas Poggio ficou desempregado, espectador de eventos de que não mais participava. Permaneceu em Constança, mas não sabemos se estava presente quando Hus foi enfim levado à presença do concílio — o momento que o reformador aguardava tão ansiosamente e com que contava para salvar sua vida — apenas para ser ridicularizado e ouvir gritos quando tentou falar.

No dia 6 de julho de 1415, numa cerimônia solene na catedral de Constança, o herege condenado foi formalmente despadrado. Uma coroa redonda de papel, com quase meio metro de altura e com a imagem de três demônios capturando uma alma e a dilacerando, foi colocada em sua cabeça. Ele foi levado para fora da catedral, passando por uma pira em que ardiam seus livros, agrilhoado e queimado na fogueira. Para garantir que não haveria restos materiais, os verdugos partiram seus ossos carbonizados e os jogaram todos no Reno.

Não há registros da opinião de Poggio sobre esses eventos em que representou seu pequeno papel, o papel de um burocrata que ajudava no funcionamento contínuo de um sistema por ele mesmo considerado perverso e incorrigivelmente corrupto. Teria sido perigoso falar, mesmo que estivesse inclinado a fazê-lo, e ele estava, afinal, a serviço do papado cujo poder Hus desafiava. (Um século depois, Lutero, à frente de um desafio mais bem-sucedido, comentou: “Somos todos hussitas sem sabê-lo”.) Mas quando, alguns meses depois, o amigo de Hus, Jerônimo de Praga, foi também julgado por heresia, Poggio não conseguiu ficar calado.

Dedicado reformador religioso com diplomas das universidades de Paris, Oxford e Heidelberg, Jerônimo era um orador famoso cujo testemunho, no dia 26 de maio de 1416, deixou uma impressão vigorosa em Poggio. “Devo confessar”, ele escreveu a seu amigo Leonardo Bruni, “que nunca vi alguém que, na defesa de uma causa, especialmente uma causa da qual sua própria vida dependesse, chegasse tão perto daquele padrão de eloquência antiga que tanto admiramos.”

Poggio estava consciente de que pisava terreno perigoso, mas o burocrata papal não conseguia conter a apaixonada admiração do humanista: Foi impressionante testemunhar com que palavras escolhidas, com que argumentos coesos, com que confiança no semblante ele replicava a seus adversários. Tão marcante foi sua peroração, que é motivo de grande preocupação que homem de tão nobre e excelente gênio tenha se desviado para a heresia. Quanto a isso, contudo, não posso deixar de ter minhas dúvidas. Mas longe de mim ousar decidir questão sobremaneira importante. Aquiescerei com a opinião dos que são mais sábios que eu. Essa prudente aquiescência não deixou Bruni muito tranquilo. “Devo te aconselhar”, ele recomendou a Poggio quando respondeu, “a escrever sobre tais temas de maneira mais cautelosa.”

A Virada, de Stephen Greenblatt