Heróis

Lucy Hughes-Hallett

#817

13 de junho de 2019

Os ingleses lavaram e passaram a ferro a imagem de Drake para fazer dele um herói nacional aceitável, mas no resto do mundo ele continuou a ser um aventureiro criminoso que em San Julian abolia toda a autoridade legítima e fez-se déspota de “uma sociedade sem classe e sem lei”, como escreveu um de seus […]

#816

12 de junho de 2019

O historiador inglês C. V. Wedgwood, cujo clássico relato da Guerra dos Trinta Anos foi publicado em 1938, cheio de ressonâncias do período em que foi escrito, observou que “Wallenstein, quiça o primeiro governante europeu a fazê-lo, havia concebido um Estado organizado exclusivamente para a guerra”. Agora alguém o imitava; Wallenstein criou uma escola para […]

#814

10 de junho de 2019

A posse de terras era para Wallenstein tanto um negócio, ao qual se dedicava assiduamente, como uma fonte de prazer. Não gostava de cães — criaturas insolentes, bajuladoras e barulhentas — e dizia-se que quando chegava a uma cidade mandava que prendessem e matassem todos os cães sem dono. Porém ele gostava de animais que […]

#810

6 de junho de 2019

Assim como Drake protagonizava os pesadelos e as visões do povo espanhol, Wallenstein também passou a povoar os de seu próprio povo. Uma mulher mística chamada Cristina Poniatowska chegou a Gitschen à procura de “um cão raivoso, um tal de Wallenstein”. Como não o encontrou por lá, ela entregou à duquesa uma carta na qual […]

#807

2 de junho de 2019

Em dezembro de 1627, Wallenstein foi se encontrar com o imperador, que caçava nos arredores de Praga. Ferdinando recebeu-o nas primeiras da manhã. Wallenstein, naturalmente, tinha a cabeça descoberta. O imperador pediu-lhe que colocasse o chapéu. Wallenstein hesitou. Ele era um herói militar, salvador do império e, àquela altura, três vezes duque, porém apenas os […]

#806

1 de junho de 2019

Os historiadores ainda discutem sobre a dimensão exata da devastação causada pela Guerra dos Trinta Anos (1618-48). Certamente muitas das histórias de atrocidades e das estatísticas chocantes que constam em documentos da época são exagerados (porque seus autores desejavam maximizar as reparações que reivindicavam ou prejudicar a reputação dos inimigos); a verdade, porém, era suficientemente […]

#802

27 de maio de 2019

O Sacro Imperador Romano não dispunha de um exército próprio. O reino de Ferdinando II era geograficamente enorme e politicamente desconjuntado, ameaçado por invasores vindos de fora e por dissidentes em seu interior. Ainda assim não dispunha de tropas regulares próprias para defender-se. A cada crise, exércitos “ad hoc” eram montados por meio de recrutamento […]

#801

26 de maio de 2019

Nietzsche despejou todo o seu desprezo sobre os ideias da democracia e sobre a ideia de se trabalhar para o bem comum de um número cada vez maior de pessoas. “A massa da humanidade sacrificar-se para a prosperidade de uma única e mais forte espécie de homem — isto sim seria um avanço”, escreveu ele. […]

#790

12 de maio de 2019

Schiller viria a comparar os inimigos políticos de Wallenstein a ignorantes que invocavam um espírito poderoso “e quando ele surge; suas carnes tremem e se arrepiam e eles passam a temê-lo; mais do que às aflições por conta das quais o invocaram”. No tempo de Wallenstein ainda havia, supostamente, pessoas que conjuravam espíritos por toda […]

#781

2 de maio de 2019

O Super-homem tem antecedentes na Antiguidade, mas no século XIX ele renasceu da cabeça de Friedrich Nietzsche. Filho brilhante de um pastor luterano, Nietzsche foi eleito para um posto docente de enorme prestígio com apenas 24 anos de idade e foi vencido pela loucura vinte anos depois, tendo produzido uma sequência de textos visionários que […]

#770

19 de abril de 2019

Em 411 a.C. o povo de Atenas decidiu chamar de volta Alcibíades, a quem havia condenado à morte e que subsequentemente lutou ao lado de seus inimigos com sucesso devastador. Assim agiram porque, como um de seus comandantes disse à Assembleia, ele era “a única pessoa viva” capaz de salvar seu Estado. Pelo mesmo motivo, […]

#748

25 de março de 2019

Afirmar que a maioria dos ídolos tem pés de barro é uma banalidade: o que é interessante é perguntar por que, sabendo disso, ainda somos fascinados por eles. Catão de Útica foi um mau político que criou, repetidamente, vantagens para seus opositores, mas seus contemporâneos julgavam-no um em um milhão. Na geração que se seguiu […]

#717

18 de fevereiro de 2019

Em 334 a.C., Alexandre III, rei da Macedônia aos vinte e dois anos de idade e já notável por sua ousadia e por sua ambição, decidiu que pisaria na Ásia pela primeira vez na praia tradicionalmente considerada aquela onde, cerca de nove séculos antes, os negros navios gregos aportaram durante os dez angustiantes anos em […]

#716

17 de fevereiro de 2019

“Fúria!”. Está é a primeira palavra da Ilíada, a palavra que inaugura a cultura literária europeia e introduz um de seus temas dominantes. A fúria não é de Agamenon, rei e comandante, mas de Aquiles, semideus delinquente, herói paradigmático cuja terrível opção pela glória, por ela pagando o preço de uma morte prematura, persegue o […]

#649

18 de novembro de 2018

Muitos imperialistas europeus acreditavam sinceramente que ao submeter outros povos a seu jugo eles os estavam libertando — de outros opressores ou de sua própria ignorância e atraso. O pirata Drake, inalcançável por qualquer lei enquanto navegava em volta ao mundo, autônomo e incontrolável em seu pequeno barco do qual era senhor absoluto, é uma […]

#648

17 de novembro de 2018

Na lenda que envolveu as aventuras de Drake, que não demorou a surgir, o Golden Hind aparece comoventemente pequenino, vulnerável e isolado, sozinho e sem qualquer apoio no avesso do mundo; mas para aqueles que defendiam os pequenos portos nos quais entrava, ele era temível. Diferente dos navios espanhóis que por ali navegavam, desprovidos de […]

#645

11 de novembro de 2018

A celebridade de Drake foi imediata e enorme. “Os membros da Câmara dos Comuns… reagiram com aplausos, elogios e manifestações de admiração”, escreveu Camden. Ele foi comparado a Jasão, a Hércules, ao próprio sol. “Seu nome e sua fama tornaram-se admirados por toda parte”, escreveu John Stow, “com as pessoas acorrendo diariamente em bandos pelas […]

#640

3 de novembro de 2018

Os homens de Drake, ao navegarem pela costa do Chile, ficavam indignados, porém não surpresos, ao verem espanhóis a cavalo com índios “correndo como cães atrás deles, completamente nus e na mais abominável servidão”. Ouviam histórias de espanhóis que torturavam seus escravos índios, jogando sobre eles gordura quente e chicoteando-os para satisfazer seu próprio prazer […]

#639

1 de novembro de 2018

Em Valparaíso, uma tripulação desavisada de marinheiros espanhóis, supondo que os homens de Drake fossem seus compatriotas, deram-lhes as boas-vindas a bordo com o rufar de tambores e brindes com vinho. Os ingleses responderam com um soco na cara do piloto, que em seguida sequestraram, desembarcando o restante da tripulação e partindo com o navio […]

#619

27 de setembro de 2018

“Drake é um homem de estatura mediana, louro, mais para gordo do que para esbelto, alegre, cuidadoso… Ele pune de maneira resoluta. Sagaz, inquieto, eloqüente, inclinado à liberdade e à ambição, fanfarrão, gabolas, não muito cruel”. Assim foi ele descrito por um alto funcionário espanhol em Santo Domingo que teve bastante oportunidade de observá-lo no […]

#618

25 de setembro de 2018

Em setembro de 1580, um barco de pesca em alto-mar à altura de Plymouth foi saudado com a seguinte pergunta por uma nau que retornava: “Como está a rainha?” O navio era o Golden Hind e a razão da pergunta de Drake era mais aflitiva do que uma preocupação sentimental pela saúde de Elizabeth. Já […]

#607

6 de setembro de 2018

Entre as surpresas advindas da queda de Wallenstein, foi que não apenas ele podia ser morto mas também que era dispensável. Ele se considerava, assim como a maioria de seus contemporâneos o consideravam, uma figura essencial ao Sacro Império Romano, não apenas como o principal construtor do domínio imperial, como também seu alicerce. Na peça […]

#601

26 de agosto de 2018

O compromisso solene (que seria conhecido como Juramento de Pilsen) destinava-se a comprometer os oficiais firmemente à causa de Wallenstein. Os signatários — assim afirma Christian von Ilow na peça de Schiller, e assim deve ele ter pensado na vida real — já não mais teriam a opção de voltar para Viena se Wallenstein se […]

#600

25 de agosto de 2018

Wallenstein não era de lutar até o último homem por uma causa perdida. Não havia princípio ao qual ele não fizesse concessão. Não havia aliança que não merecesse consideração; certa vez ele disse: “Quando todas as terras estiverem arruinadas seremos obrigados a aceitar a paz.” Essas palavras têm sido citadas por aqueles que querem apresentá-lo […]

#597

19 de agosto de 2018

Quando o dia amanheceu ambos os exércitos estavam ocultados por uma densa neblina, mas por volta das 11 horas a luta começou, segundo relato do próprio Wallenstein, “com fúria tal que homem nenhum jamais viu ou ouviu igual”. A despeito da dor que sentia nas pernas e nos pés, ele comandou seus homens a cavalo. […]

#596

18 de agosto de 2018

Em março de 1631, menos de meio ano depois de destituir Wallenstein, o imperador já suplicava que ele retornasse a Viena e o ajudasse a enfrentar a crise. Ele não se moveu. O império fragmentava enquanto, um após outro, os príncipes protestantes aliavam-se à Suécia. A causa imperial parecia perdida. Ex-oficiais de Wallenstein escreveram-lhe deplorando […]

#585

29 de julho de 2018

A Guerra dos Trinta Anos foi uma época na qual os próprios reis ainda chefiavam seus exércitos nos campos de batalha, porém Maximiliano da Baviera, como o imperador Ferdinando, preferia delegar essa chefia. Seu comandante-em-chefe era o general Johann Tserclaes von Tilly, que tinha 66 anos de idade em 1625 e praticamente tantas condecorações militares […]

#584

28 de julho de 2018

Embora Wallenstein fosse o generalíssimo imperial na Guerra dos Trinta Anos, ele trabalhava em aliança com Maximiliano, o eleitor da Baviera, que havia debelado a revolta dos boêmios para o imperador durante a primeira fase do conflito. Até o fim da vida de Wallenstein, Maximiliano seria um personagem de relevo em sua história, como colega […]

#577

15 de julho de 2018

A Guerra dos Trinta Anos já seria absolutamente confusa por sua complexidade, ainda que fosse estável e consciente, o que não era. Os Estados no século XVII não eram sistemas fechados. Laços de parentesco interferiam nas alianças políticas locais e as contradiziam. O mesmo ocorria com filiações religiosas. Um mesmo homem podia ocupar vários cargos […]

#566

26 de junho de 2018

A religião foi uma das muitas causas em questão na Guerra dos Trinta Anos. Hostilidades sectárias tomaram conta do Sacro Império Romano, no qual cada pequeno Estado tinha sua religião estabelecida e suas minorias religiosas e isso se complicava a cada instante com políticas seculares. O mundo por onde Wallenstein circulou, era um mundo cujas […]

#563

21 de junho de 2018

Quando Aquiles se apresentou, terrivelmente assustador, recoberto por chamas, seus inimigos entraram em pânico e morreram; e quando ele surgiu em plena batalha, imundo com o sangue de suas vítimas, os troianos fugiram para todos os lados. O herói de Homero era o terror encarnado. Assim também foi Albrecht Eusebius Wallenstein, duque de Friedland, comandante-em-chefe […]

#562

19 de junho de 2018

“Infeliz é a nação que precisa de heróis”, escreveu Brecht. A Alemanha no século XVII era um país onde a infelicidade era endêmica. Camponeses e príncipes, indistintamente, eram tomados pelos mesmo tipo de desespero que levou os atenienses a ver no traiçoeiro e blasfemo Alcibíades um onipotente salvador. Um pregador inglês chamado Edmund Calamy referiu-se […]

#560

16 de junho de 2018

A Espanha era um império decido a dominar o mundo, e em meados do século XVI, parecia estar perto desse objetivo. Em 1526, Gonzalo Fernández de Oviedo dirigiu-se ao rei da Espanha chamando-o de “monarca único e universal de todo o mundo”. Falava de maneira figurada, mas também como algo que poderia acontecer. A descoberta […]

#552

29 de maio de 2018

Quando Rodrigo Díaz, conhecido como El Cid, morreu em 1099, toda a cristandade de acordo com um cronista francês, lamentou o ocorrido e os “paynims” (termo arcaico relativo a “paganismo”) da Espanha islâmica rejubilaram-se. Rodrigo parecia, a todos os seus contemporâneos e até mesmo a seus inimigos mais ferrenhos, ter sido um homem destinado à […]