O Chapéu de Vermeer

O século XVII e o começo do mundo globalizado

Timothy Brook, Canadá

#642

6 de novembro de 2018

A Paz de Vestfália, de 1648, que, por convenção, marca surgimento do sistema estatal moderno, envolveu vários tratados que deram fim às guerras prolongadas entre os novos Estados poderosos que competiam pela cisão entre o catolicismo e o protestantismo, como a Guerra dos Oitenta Anos entre Espanha e os Países Baixos (uma das que proibiram […]

#636

27 de outubro de 2018

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo.” O verso vem das “Devoções para situações emergentes”, do poeta e teólogo inglês John Donne. Ele escreveu essas meditações sob o fardo da fé cristã em 1623, quando esteve gravemente enfermo, numa época em que enfrentava uma das muitas “situações de emergência” da sua vida. A […]

#627

11 de outubro de 2018

Desde o século XV, os africanos chegaram à Europa, em pequeno número, mas, nos Países Baixos, sua quantidade aumentou perceptivelmente no século XVII. Eles iam para lá como marinheiros, trabalhadores braçais e criados nas cidades portuárias de Antuérpia e Amsterdã, mas principalmente como escravos. As leis dessas cidades permitiam que os escravos pedissem alforria às […]

#626

9 de outubro de 2018

É fácil reconhecer “Os jogadores de cartas” como uma pintura holandesa dos meados século XVII, mas é improvável que a confundam com um Vermeer. Os elementos já conhecidos estão presentes: as janelas à esquerda, os quadrados de mármore em diagonal, uma fila de azulejos de Delft onde a parede se une ao chão, um tapete […]

#621

30 de setembro de 2018

A capacidade europeia de organizar e manter operações comerciais em escala global dependia, em parcela nada pequena, das novas tecnologias que acompanhavam o comércio marítimo. Em 1620, o polímata inglês Francis Bacon escolheu citar três “descobertas mecânicas” que, em sua opinião, “mudaram todo o aspecto e o estado das coisas no mundo inteiro”. Uma delas […]

#620

29 de setembro de 2018

Em meados do século XVII, a casa holandesa era decorada com porcelana. A arte imitou a vida, e os pintores puseram pratos chineses em cenas domésticas para dar um toque de classe e uma pátina de realidade. Em Delft, a porcelana chinesa começou a ficar disponível antes da época de Vermeer. A nau capitânia da […]

#617

23 de setembro de 2018

Durante século XVI, a caça excessiva de castores na Europa forçaram os chapeleiros a usar lã de ovelha para fazer feltro. O feltro de lã não é ideal para chapéus, porque a lã é mais grossa, e sua capacidade natural de cobrir é menor do que a do pelo do castor. Mas no final do […]

#616

22 de setembro de 2018

Vermeer deve ter possuído vários chapéus. Nenhum documento menciona isso, mas nenhum holandês de sua geração e posição social sairia às ruas com a cabeça descoberta. Basta dar uma olhada nas pessoas no primeiro plano de “Vista de Delft” para ver que todos, homens e mulheres, usam chapéu ou alguma cobertura na cabeça. Os pobres […]

#606

4 de setembro de 2018

Os quadros de Vermeer podem ser considerados não só portas pelas quais se pode entrar e redescobrir o passado, como também espelhos que refletem a multiplicidade de causas e efeitos que produziram o passado e o presente. O budismo usa imagem semelhante para descrever a interligação de todos os fenômenos. É a rede de Indra. […]

#599

23 de agosto de 2018

Em “O geógrafo”, de Vermeer, os sinais do mundo mais vasto estão por toda parte. O documento que aquele geógrafo abre diante de si é indecifrável, mas, claramente, é uma mapa. Uma carta marítima em velino está frouxamente enrolada à direita dele, sob a janela. No chão, atrás do geógrafo, há dois mapas enrolados. Uma […]

#598

21 de agosto de 2018

Há um quadro de Vermeer, O geógrafo, que requer pouco esforço para localizar sinais do mundo mais vasto que envolvia e invadia Delft. O quadro se abre convencionalmente no estúdio do artista, no mesmo espaço fechado que esperamos encontrar nos quadro de Vermeer, em que as janelas luminosas estão pintadas num ângulo tão oblíquo que […]

#593

12 de agosto de 2018

Os leitores holandeses ouviram falar da porcelana chinesa em 1596 por meio de Jan Huygen van Linschoten, holandês que foi à Índia a serviço dos portugueses. “Itinerário”, seu livro de sucesso, inspirou a geração seguinte de comerciantes mundiais holandeses. Van Linschoten viu a porcelana chinesa nos mercados de Goa. Embora nunca tenha ido à China, […]

#583

26 de julho de 2018

Para o capitalismo das grandes empresas, a Companhia Holandesa das Índias Orientais — a VOC, como é conhecida — tem a mesma importância que a pipa de Benjamin Franklin para a eletrônica: a criação de um marco que não se poderia prever na época. Primeira grande companhia por ações no mundo, a VOC foi criada […]

#582

24 de julho de 2018

A pirataria holandesa provocou protestos diplomáticos de outras nações, não só de Portugal. Em 1603, quando os holandeses capturaram o Santa Catarina, Portugal exigiu a devolução do navio com todo o seu carregamento, insistindo que fora uma captura ilegal. Os diretores da companhia sentiram que tinham de criar para si uma argumentação de defesa que […]

#561

17 de junho de 2018

Vermeer viveu perto do fim do chamado século da prata, que começou por volta de 1570. Nunca antes esse metal precioso circulou em tamanha quantidade na bolsa dos viajantes, nas costas dos animais de carga, em barcos pelos rios e, principalmente, no porão dos juncos chineses e das carracas europeias que, incansáveis, singravam as águas […]

#504

7 de fevereiro de 2018

A história do Estado seguiu um curso diferente na Ásia, embora uma intensificação semelhante das operações estatais possa ser vista. Tanto o regime Tokugawa, no Japão, quanto a dinastia Qing, na China., fortaleceram a administração burocrática, exercendo um controle ainda mais estrito do que as dinastias anteriores. Na verdade, os europeus ficaram tão impressionados com […]

#501

31 de janeiro de 2018

O crescimento do Império Britânico deveu-se a muitos fatores, sendo um dos principais a criação do comércio do ópio, pelo qual a Companhia das Índias Orientais inglesa vinculou o controle territorial da Índia aos mercados da China, onde comprava chá e tecidos. O sucesso da companhia, por sua vez, tem de ser ligado ao vácuo […]

#489

3 de janeiro de 2018

A China foi o grande destino global da prata europeia por duas razões. Em primeiro lugar , o poder da prata de comprar ouro nas economias asiáticas era maior do que na Europa. Se 12 unidades de prata eram necessárias para comprar uma unidade de ouro na Europa, o mesmo volume de ouro podia comprado […]

#477

6 de dezembro de 2017

A palavra que Fang Yizhi usa para o fumo é danrouguo, “fruto carnudo da planta danbagu”. Danbagu era o nome que os chineses das Filipinas davam ao fumo. Cunharam-no como transliteração grosseira do espanhol tabaco, que por sua vez, os espanhóis tinham transliterado da palavra caribenha que denominava a cana-oca em que os indígenas caribenhos […]

#471

22 de novembro de 2017

O fumo foi até a China por três rotas: a rota portuguesa para leste, do Brasil até Macau; a rota espanhola para oeste, do México até Manila; e uma terceira rota, que consistia de uma série de viagens curtas pela Ásia oriental, até Beijing. A primeira e a segunda rotas desenvolveram-se mais ou menos ao […]

#466

11 de novembro de 2017

A prata corria para leste, de Potosí até a Europa, e, depois, da Europa para a Ásia, mas não era essa a única rota até a China, muito menos a mais importante. O dobro do volume de prata que ia para leste também ia para oeste; primeiro até o litoral, e daí para Acapulco, de […]

#329

26 de dezembro de 2016

No quadro Leitora à Janela, de Johannes Vermeer, nossos olhos vão, primeiro para a moça, mas o prato competiu pela atenção dos contemporâneos de Vermeer. Era um prazer admirar fruteiras como essa, mas elas ainda eram raras e caras, e poucos podiam comprá-las. Uma ou duas décadas antes, os pratos chineses raramente apareciam em quadros holandeses; […]

#308

6 de novembro de 2016

Se os dois quadros dividem espaço e tema, diferem nos objetivos, que mostrar. Leitora à janela não tem elementos em excesso, mas há mais objetos no quadro, que participam mais da função de criar atividade visual. Para equilibrar a movimentação desses objetos, Vermeer deixou a parede vazia. Vazia, mas longe de ser um vácuo; com […]

#307

5 de novembro de 2016

Vermeer pintou Leitora à janela mais ou menos na mesma época que pintou Oficial e a moça sorridente. Vemos a mesma sala no andar de cima, a mesma mesa, a mesma cadeira, a mesma mulher usando até o mesmo vestido, novamente a esposa Catharina Bolnes, ou assim creio. Embora a ação dos dois quadros seja […]

#90

17 de junho de 2015

As primeiras peças de porcelana chinesa que chegaram à Europa espantaram todos os que as viram ou manusearam. Quando instados a descrever o material de que eram feitas, os europeus só conseguiam pensar em cristal. A superfície vitrificada era dura e lustrosa, os desenhos sob a superfície, bem-definidos, as cores, vivas e brilhantes. O material […]

#79

23 de maio de 2015

De Portugal, o fumo foi para a França, Damião de Góes deu a Jean Nicot sementes do seu jardim, que as levou para França, para plantá-las em casa. É provavel que isso tenha acontecido antes de 1559, quando Nicot foi nomeado embaixador da França em Portugal. Ele então se gabou de ter sido o primeiro […]

#19

23 de janeiro de 2015

Antes que a prata pudesse ser transportada, tinha de ser cunhada em reais na Casa da Moeda de Potosí. A maior parte ia para Europa por duas rotas diferentes, a oficial e a “porta dos fundos”. A rota oficial, sob o controle da coroa espanhola, seguia para oeste, por sobre as montanhas, até o porto […]

#12

16 de janeiro de 2015

Os primeiros que foram levados até lá pelos índios, em 1545, acharam que os seus sonhos mais desvairados tinham se realizado. Indivíduos de toda a Europa e da América do Sul acorreram àquele lugar árido para extrair prata ou fornecer os bens e serviços necessários a uma cidade. Quase da noite para o dia, Potosí […]

#03

3 de janeiro de 2015

Na virada do século XVII, os navios da VOC [Companhia Holandesa das Índias Orientais] também estavam no mar da China Meridional, sondando o litoral ao norte de Macau até a província de Fujian, em busca de um lugar onde pudessem estabelecer o comércio com a China. Como já tinha um acordo comercial em Macau com […]